Durante o estágio IAO ( instrução de aptidão operacional ) que fizemos na aldeia de Redondelo do concelho de Chaves, dois furriéis da CCS, decidimos levar para Moçambique uma mala cheia de sementes para fazer uma "machamba"; era uma espécie de "projecto empresarial privado".
Quando chegamos a Lourenço Marques, contamos a proeza a um residente local que nos aconselhou a comprar sementes da África do Sul; estavam mais adaptadas ao clima africano, as sementes de Portugal podiam não produzir tão bem.
Quando desembarcamos na Beira fomos logo à praça do Município comprar outra dose de sementes, agora de origem sul africana.
Entretanto, já sabíamos que o nosso destino era o Niassa, havia ainda o risco de não termos água para a cultura de regadio.
De uma maneira geral a tropa acarretava a água em bidons e muitas das vezes tinha que dividi-la com o inimigo e andar à morteirada pelo caminho.
Era uma verdadeira utopia... acreditar no projecto "machamba" sem saber se havia água disponível...
Quando chegamos a Mecula e deparamos com um enorme taqnque de água e uma tubagem de duas polegadas a debitar o precioso líquido, nem queríamos acreditar!
Logo ali ao lado, na oficina auto, tivemos outra surpresa agradável: um tractor Massey Ferguson modelo 165.
É pá, afinal vamos ter uma grande machamba!
Durou poucas horas a euforia destes dois checas... o nosso capitão, que conhecia o nosso projecto, tinha mudado de ideias, acabava de decidir que a machamba ia ser explorada directamente pela companhia!
Um dos "investidores" abandonou de imediato o projecto e disse ao capitão que estava disposto a vender as sementes se a companhia as quisesse comprar, para ele o projecto da machamba tinha acabado de morrer!
O capitão da CCS pagou-nos as sementes e pediu-me a mim para fazer a gestão da machamba; afinal, até estava a dar-me a oportunidade de fazer aquela experiência com que tinha sonhado durante a viagem no Vera Cruz.
Eu respondi-lhe que só aceitava o desafio desde que estivessem garantidas condições de sucesso do projecto. Fazia-o pelo bem estar de toda a gente uma vez que os rendimentos eram para bem da comunidade, só punha como condição que o projecto tivesse "estatuto profissional " , com pessoal a tempo inteiro escolhido por mim.
Foi convidado um soldado transmontano, de São Vicente da Raia - Chaves, um homem de mãos calejadas, habituado ao cabo da enxada a quem o trabalho do campo não metia medo; ao contrário da sua missão de rádio telegrafista de "Racal" às costas, onde podia morrer de um tiro ou pisar uma mina.
Feito o convite, e no aperto de mão com se celebram os contratos entre transmontanos, ficou logo acordado que se a machamba não desse de comer para toda a gente seria logo despedido.
Conseguimos dar-lhe isenção de horário de trabalho, isenção de formaturas...etc. Tinha que ser "machambeiro" a cem por cento.
Dava gosto vê-lo, ao Amândio Gomes, antes do nascer o sol a regar as plantas. Ele e o seu adjunto ( um moçambicano contratado ) a fazerem as replantações e semear todos os dias um canteiro de alfaces.
A meio da manhã lá ia o Amândio fazer as entregas aos seus clientes - ( messe de oficiais e sargentos e à cozinha do rancho geral).
Os produtos da machamba, eram:
Alfaces, tomates, cenouras, couve galega, penca de Chaves, couve de Bruxelas, feijão verde, feijão de trepar e feijão rasteiro, pimentos, cebolas, beringelas, rabanetes, ervilhas, pepinos, melões, melancias e até consegimos ter ABACAXI e a toda a volta do quartel uma plantação de papaieiras.
Postes e arame farpado ( era o arame que havia.. ) para os tomateiros em bardo como uma vinha! Tomateiros podados e sulfatados!
Seguramente a melhor machamba do Niassa!
A machamba para além se ter sido uma experiência muito interessante, criou-nos condições para ter uma boa dieta alimentar. Tão diferente daquela miséria de comer arroz com salsichas todos os dias como acontecia à grande maioria dos nossos camaradas que estavam isolados no mato onde a água era escassa.
Mesmo abonados de ração de combate, havia camaradas que se davam ao luxo.. de levar nas colunas uma terrina. Com cebola, alface, tomate, faziam uma salada a que juntavam o atum e as sardinhas de toda a malta e comiam todos do mesmo tacho.
A produção da machamba era tanta que, apesar de estarem em Mecula duas companhias, ainda dava para distribuir pela população.
Nunca mais vi o Amândio, dizem-me que tem estado emigrado nos Estados Unidos, espero que um dia possa ler este texto, ainda hoje lhe estamos agradecidos pela sua dedicação à machamba da qual saíam "os frescos" que nos faziam tão bem à nossa saúde.
Obrigado, Amândio.
Era bonito ver as crianças moçambicanas comer tomates como quem come maçãs... afinal esta era "outra guerra" que matava a fome... e não matava pessoas!
Ernesto P. Fernandes
Ex- Furriel Miliciano Sapador da CCS do BCaç. 2914