Depois de uma longa ausência de participação no blog, resolvi retomar hoje a minha colaboração abordando um caso que me é muito doloroso, atendendo às circunstancias em que aconteceu.
Trata-se precisamente das circunstâncias que precederam a morte do saudoso 1.º Cabo Melo, que era do pelotão do ex-Alferes Morais, da C. CAÇ. 2707, de quem já foram publicadas neste blog duas fotografias.
JOSÉ MARQUES MELO, 1.º Cabo Atirador de Infantaria da C. CAÇ. 2707/B. CAÇ. 2914, era natural da actual Vila de Praia de Mira, ao tempo freguesia e concelho de Mira, que então só tinha uma freguesia.
A terra onde nasci e onde vivo dista 16 quilómetros da Praia de Mira, se formos dar a volta pela sede do concelho; indo pela floresta, serão uns dez quilómetros. Apesar desta proximidade, só vim a conhecer o José Marques MELO na tropa, em Chaves, quando me foram entregues os boletins sanitários de todo o pessoal da Companhia. Também só em Moçambique fiquei a saber que o ex-furriel Louro tinha raízes no meu concelho, o de Cantanhede, ao ver chegar-lhe a “ Boa Nova ”, publicação quinzenal que ele assinava e fazia o favor de me facultar…
Da proximidade geográfica entre mim e o José Marques Melo nasceu uma natural amizade. Fiquei a saber que tinha como profissão pescador, como a generalidade dos homens da Praia de Mira. Era casado, mas ainda não tinha filhos. Trabalhava nas traineiras, com base no porto da Figueira da Foz. Nas suas deslocações de ida e regresso do trabalho passou dezenas de vezes à minha porta.
Quis o destino que, em Nantuego, o MELO contraísse a malária, a que normalmente chamamos paludismo. Ele bem tentou ver se evitava a baixa, mas a febre era tanta que mal se aguentava em pé quando, na manhã do dia 6 de Novembro de 1970, me apareceu na Enfermaria. Já de lá não saiu e foi “medicado” com os remédios do costume.
No dia 8 de Novembro já se sentia restabelecido e cheio de vontade de se ir embora. Pediu-me mesmo para lhe dar alta antes do almoço. Travei o seu entusiasmo dizendo-lhe que numa situação daquelas precisava de três dias para se tratar e mais dois ou três dias para recuperar fisicamente. Acatou a minha decisão, almoçou na Enfermaria e por lá permaneceu durante a tarde desse dia. Só que à noite, antes de me deitar e de acordo com os meus costumes, fui dar uma vista de olhos pela Enfermaria e a cama do MELO estava vazia…Bem perguntei por ele ao único cabo auxiliar de enfermeiro que lá tinha, concretamente o Fernando Correia, entretanto falecido em França devido a acidente. A resposta do Correia foi mais ou menos esta: “ O meu furriel não viu o jeito dele logo de manhã? Disse que já estava bom e quis ir jantar ao refeitório…”.
Quem conviveu comigo de perto sabe que eu, embora miliciano como dezenas de outros camaradas, não gostava de “ brincar em serviço”, especialmente quando estava em causa a vida ou a saúde de alguém. Daí, logicamente não gostei da atitude do MELO e mandei chamá-lo à Enfermaria, logo na manhã do dia 9 de Novembro, onde compareceu prontamente. Questionei-o sobre os motivos do seu comportamento, ao que me respondeu que se sentia bem, sem temperatura e fisicamente recuperado e, em ar de brincadeira muito próprio dele, que já estava farto de ler as notícias dos poucos e antigos jornais que havia na Enfermaria…
Claro que lhe expliquei que o seu comportamento tinha sido precipitado, pois precisava de mais dois dias de descanso e que, depois de ter sido visto a jantar no refeitório e a dormir na camarata, eu só tinha uma de duas soluções a tomar perante aquele acto que fora um abuso de confiança: participar disciplinarmente contra ele ou dar-lhe alta da Enfermaria. Mais uma vez o MELO me desarma respondendo que não acreditava que fosse minha intenção participar dele e que queria mesmo ter alta pois sentia-se bem, sabia que os efectivos do pessoal no quartel naquela altura eram reduzidos e que andavam a alinhar a fazer reforços noite sim, noite não… O que era verdade, diga-se de passagem! Perante estes argumentos, que figura fazia eu ao participar de um amigo que queria ir fazer serviço? Em que situação ia eu colocar o próprio Capitão, Comandante de Companhia, confrontando-o com uma participação por um acto de indisciplina - abandono da Enfermaria - se quem o cometeu se iria defender daquela maneira?... Motivos suficientes para que eu pensasse e decidisse, embora a contra-gosto, preencher o papelinho da alta e mandar entregá-lo na Secretaria da Companhia, com a advertência de que não repetisse tal atitude.
Infelizmente, não repetiu. Nesse mesmo dia, depois do jantar, o pessoal do pelotão do alferes Morais recebeu ordens para ir ao depósito de géneros levantar rações de combate para cinco dias, pois iria sair no dia seguinte para uma operação.
Saiu de Nantuego no dia 10 de Novembro, em direcção a Mecula e no dia 11 de Novembro o pessoal envolvido na operação foi largado numa zona nas encostas da Serra Mecula, onde estaria o objectivo do IN a atingir. Quanto ao resto, todos os camaradas sabem: pisou uma mina anti-pessoal reforçada que lhe destruiu os membros inferiores, com dores horríveis e hemorragias incontroláveis, tendo ainda tempo de vida e lucidez suficientes para se portar como um herói. Disse quem estava perto dele, enquanto aguardavam o helicóptero para proceder à evacuação para o Hospital Militar de Nampula, que o MELO nunca teve dúvidas de que iria morrer, não acreditou nas conversas de esperança dos camaradas, de quem se despediu emocionado. Disse-lhes onde guardava a chave do cadeado do armário metálico onde tinha as suas roupas e guardava os seus objectos pessoais. Pediu-lhes que entregassem as cartas da família na Secretaria da Companhia, para serem devolvidas para a Metrópole, mas que o dinheiro que lá tinha não devia ser entregue! A família passaria bem sem esse dinheiro e, por vontade dele, deveria dar para uma cerveja a cada um dos camaradas da Companhia. Era uma forma de se despedir de todos, com os votos de que tivessem melhor sorte que a dele. Claro que ninguém gastou um centavo desse dinheiro mas também ninguém se esqueceu do MELO.
Ainda sobre a questão da evacuação do MELO, importa lembrar o episódio decorrente do facto de, no momento da chegada do helicóptero, ele já estar morto. O piloto, armado em esperto, descobriu o que todos os presentes sabiam… E veio com a velha treta das N.E.P.´s (Normas de Execução Permanente ) que proibiam a evacuação de cadáveres. Claro que o Comandante das forças no T. O. bem sabia o que diziam as ditas normas; no entanto, levá-las a rigor implicaria o transporte de um cadáver num saco de lona durante dias, ocupando dois homens, reduzindo a capacidade operacional do grupo de combate e sendo certo que o corpo, atendendo ao clima de África, entraria rapidamente em putrefacção. Chegados ao quartel, deveria o corpo ser sepultado sem caixão próprio e aí aguardaria, com uma tabuleta numerada, ordens de transladação. Era uma solução que, além de desumana, comprometeria os objectivos da operação.
Perante este quadro, o piloto foi “diplomaticamente” informado de que, se queria voltar ao local de partida – Nampula -, só tinha uma solução: levar o MELO como vivo e dizer em Nampula que ele morrera pelo caminho. E foi o que ele fez…
Esta questão é importante porque vem responder aos comentários de vários camaradas da C. CAÇ. 2707 e de todo o B. CAÇ. 2914 quando, em 23 de Maio de 1999, em romagem à sepultura do José Marques MELO no cemitério da Praia de Mira, à entrada, do lado direito, viram uma lápide onde se diz que o nosso camarada morreu em combate no dia 11.11.1970, em Nampula. Como devem estar recordados todos os que estiveram presentes no convívio que organizei em 1999 na Vila de Tocha, no final da missa dirigimo-nos ao cemitério da Praia de Mira para prestar homenagem ao nosso camarada MELO. Previamente contactei os seus pais, bem como o Presidente em exercício da Junta de Freguesia da Praia de Mira, que esteve presente na cerimónia. Os pais disseram-me com bastante pena que não poderiam comparecer pois tinham já programada para esse período uma viagem ao Canadá, em visita a outros filhos lá radicados. Na campa deixamos uma coroa de flores e idêntica atitude tivemos em relação a todos os combatentes mortos, lembrados pelo monumento à esquerda, no mesmo cemitério. Mesmo agora, ainda algumas pessoas do concelho de Mira com quem tenho falado e que conhecem Moçambique, estranhavam que se tivesse morrido em combate em Nampula. Pois, PARA QUE A TERRA NÃO ESQUEÇA, é bom que se saiba que o camarada MELO morreu mesmo em combate, não em Nampula, mas sim na SERRA MECULA, comportando-se como um HERÓI até aos últimos instantes da sua vida.
Sérgio Rêpas
Ex-furriel miliciano enfermeiro da CCaç. 2707 /BCaç. 2914