terça-feira, 1 de setembro de 2009

Heróis de Mecula

Em 1 de Dezembro de 1917 começou a abrir os entrincheiramentos nas posições que dominavam os caminhos de acesso do adversário, apesar de serem poucas as ferramentas de que dispunha.

Às 5 horas da manhã de 3 de Dezembro deu-se o contacto, tendo pelo dia adiante os alemães reforçado as suas forças e sucessivamente varrido os nossos postos avançados de combate; mas após sete horas de fogo, retiravam com bastantes baixas, perante a resistência tenaz e persistente dos defensores, os quais, depois de refeitos, com energia melhoraram os seus entrincheiramentos durante os dias 4 e 5 de Dezembro.

No dia 6 os alemães voltaram ao ataque com maior número de metralhadoras e maiores efectivos, visando em especial as metralhadoras dos defensores da posição da Serra Mecula. No combate deste dia empregaram patrulhas e prolongaram o tiroteio até ao pôr-do-sol.

Aproveitando a noite conseguiram fazer avançar as suas patrulhas de modo que, ao romper novamente o fogo na manhã do dia 7, já se encontravam em estreito contacto com os defensores, mas a disciplina e o cruzamento dos nossos fogos conseguia detê-los mais um dia.
Finalmente, na manhã do dia 8 já traziam ao combate duas peças de artilharia, alvejando com as suas granadas as nossas trincheiras e, com maiores efectivos, conseguiam envolver as posições em que os portugueses se encontravam então encurralados. Com esse avanço conseguiam os alemães apoderar-se das fontes que abasteciam de água as nossas tropas e os refrigeradores das metralhadoras, que escaldavam pelo intenso fogo.

Ao meio-dia apoderam-se duma parte das nossas trincheiras. Mas ainda assim, a luta durou mais duma hora até que eles se lançaram ao assalto, decidindo o combate. Foi então que morreu um dos oficiais novos, que já tinha um nome prestigiado, o tenente Viriato de Lacerda, ferido mortalmente quando destruía a metralhadora que lhe restava, para que ela não caísse em poder dó inimigo. Ao ser enterrado este oficial, os alemães prestaram-lhe honras, dando um pelotão as descargas do estilo e sendo acompanhado pelos seus camaradas, amigos e inimigos até ao coval.

O governador da colónia alemã Dr. Schnee, que acompanhou sempre as suas tropas em 1917 e 1918, assistiu ao funeral. Comandava o destacamento inimigo o general de reserva Wahle, figura típica do valor militar dos nossos adversários; visitava a colónia alemã quando rebentou a guerra e, voluntariamente, serviu em importantes comandos subordinados ao, então tenente-coronel, von Lettow.

Depois foi comunicado ao comandante das nossas forças, capitão Curado, que os alemães tinham resolvido dar a liberdade aos prisioneiros, mas como garantia exigiam aos oficiais o compromisso de honra de não voltarem a combater os impérios centrais e, aos outros graduados europeus, que não combatessem mais em África. Como os nossos se recusassem a tomar esse compromisso, a que se opõem os regulamentos, os alemães acataram com apreço essa resolução, dando-lhes liberdade incondicional.
O combate da Serra Mecula, essa resistência tenaz durante quatro dias, até que a companhia e a bateria de metralhadoras ficaram reduzidas a 36 indígenas, depois do assalto, foi uma das acções mais impressionantes da campanha, dando novo realce à figura prestigiosa do valoroso comandante, capitão Curado, a quem chamaram «o condestável do Rovuma» e que contudo só foi promovido por distinção mais de dois anos depois.

Texto recolhido do site, Arqnet.pt

domingo, 30 de agosto de 2009

Homenagem de um vizinho do Melo

Depois de uma longa ausência de participação no blog, resolvi retomar hoje a minha colaboração abordando um caso que me é muito doloroso, atendendo às circunstancias em que aconteceu.
Trata-se precisamente das circunstâncias que precederam a morte do saudoso 1.º Cabo Melo, que era do pelotão do ex-Alferes Morais, da C. CAÇ. 2707, de quem já foram publicadas neste blog duas fotografias.

JOSÉ MARQUES MELO, 1.º Cabo Atirador de Infantaria da C. CAÇ. 2707/B. CAÇ. 2914, era natural da actual Vila de Praia de Mira, ao tempo freguesia e concelho de Mira, que então só tinha uma freguesia.
A terra onde nasci e onde vivo dista 16 quilómetros da Praia de Mira, se formos dar a volta pela sede do concelho; indo pela floresta, serão uns dez quilómetros. Apesar desta proximidade, só vim a conhecer o José Marques MELO na tropa, em Chaves, quando me foram entregues os boletins sanitários de todo o pessoal da Companhia. Também só em Moçambique fiquei a saber que o ex-furriel Louro tinha raízes no meu concelho, o de Cantanhede, ao ver chegar-lhe a “ Boa Nova ”, publicação quinzenal que ele assinava e fazia o favor de me facultar…
Da proximidade geográfica entre mim e o José Marques Melo nasceu uma natural amizade. Fiquei a saber que tinha como profissão pescador, como a generalidade dos homens da Praia de Mira. Era casado, mas ainda não tinha filhos. Trabalhava nas traineiras, com base no porto da Figueira da Foz. Nas suas deslocações de ida e regresso do trabalho passou dezenas de vezes à minha porta.
Quis o destino que, em Nantuego, o MELO contraísse a malária, a que normalmente chamamos paludismo. Ele bem tentou ver se evitava a baixa, mas a febre era tanta que mal se aguentava em pé quando, na manhã do dia 6 de Novembro de 1970, me apareceu na Enfermaria. Já de lá não saiu e foi “medicado” com os remédios do costume.
No dia 8 de Novembro já se sentia restabelecido e cheio de vontade de se ir embora. Pediu-me mesmo para lhe dar alta antes do almoço. Travei o seu entusiasmo dizendo-lhe que numa situação daquelas precisava de três dias para se tratar e mais dois ou três dias para recuperar fisicamente. Acatou a minha decisão, almoçou na Enfermaria e por lá permaneceu durante a tarde desse dia. Só que à noite, antes de me deitar e de acordo com os meus costumes, fui dar uma vista de olhos pela Enfermaria e a cama do MELO estava vazia…Bem perguntei por ele ao único cabo auxiliar de enfermeiro que lá tinha, concretamente o Fernando Correia, entretanto falecido em França devido a acidente. A resposta do Correia foi mais ou menos esta: “ O meu furriel não viu o jeito dele logo de manhã? Disse que já estava bom e quis ir jantar ao refeitório…”.
Quem conviveu comigo de perto sabe que eu, embora miliciano como dezenas de outros camaradas, não gostava de “ brincar em serviço”, especialmente quando estava em causa a vida ou a saúde de alguém. Daí, logicamente não gostei da atitude do MELO e mandei chamá-lo à Enfermaria, logo na manhã do dia 9 de Novembro, onde compareceu prontamente. Questionei-o sobre os motivos do seu comportamento, ao que me respondeu que se sentia bem, sem temperatura e fisicamente recuperado e, em ar de brincadeira muito próprio dele, que já estava farto de ler as notícias dos poucos e antigos jornais que havia na Enfermaria…
Claro que lhe expliquei que o seu comportamento tinha sido precipitado, pois precisava de mais dois dias de descanso e que, depois de ter sido visto a jantar no refeitório e a dormir na camarata, eu só tinha uma de duas soluções a tomar perante aquele acto que fora um abuso de confiança: participar disciplinarmente contra ele ou dar-lhe alta da Enfermaria. Mais uma vez o MELO me desarma respondendo que não acreditava que fosse minha intenção participar dele e que queria mesmo ter alta pois sentia-se bem, sabia que os efectivos do pessoal no quartel naquela altura eram reduzidos e que andavam a alinhar a fazer reforços noite sim, noite não… O que era verdade, diga-se de passagem! Perante estes argumentos, que figura fazia eu ao participar de um amigo que queria ir fazer serviço? Em que situação ia eu colocar o próprio Capitão, Comandante de Companhia, confrontando-o com uma participação por um acto de indisciplina - abandono da Enfermaria - se quem o cometeu se iria defender daquela maneira?... Motivos suficientes para que eu pensasse e decidisse, embora a contra-gosto, preencher o papelinho da alta e mandar entregá-lo na Secretaria da Companhia, com a advertência de que não repetisse tal atitude.
Infelizmente, não repetiu. Nesse mesmo dia, depois do jantar, o pessoal do pelotão do alferes Morais recebeu ordens para ir ao depósito de géneros levantar rações de combate para cinco dias, pois iria sair no dia seguinte para uma operação.
Saiu de Nantuego no dia 10 de Novembro, em direcção a Mecula e no dia 11 de Novembro o pessoal envolvido na operação foi largado numa zona nas encostas da Serra Mecula, onde estaria o objectivo do IN a atingir. Quanto ao resto, todos os camaradas sabem: pisou uma mina anti-pessoal reforçada que lhe destruiu os membros inferiores, com dores horríveis e hemorragias incontroláveis, tendo ainda tempo de vida e lucidez suficientes para se portar como um herói. Disse quem estava perto dele, enquanto aguardavam o helicóptero para proceder à evacuação para o Hospital Militar de Nampula, que o MELO nunca teve dúvidas de que iria morrer, não acreditou nas conversas de esperança dos camaradas, de quem se despediu emocionado. Disse-lhes onde guardava a chave do cadeado do armário metálico onde tinha as suas roupas e guardava os seus objectos pessoais. Pediu-lhes que entregassem as cartas da família na Secretaria da Companhia, para serem devolvidas para a Metrópole, mas que o dinheiro que lá tinha não devia ser entregue! A família passaria bem sem esse dinheiro e, por vontade dele, deveria dar para uma cerveja a cada um dos camaradas da Companhia. Era uma forma de se despedir de todos, com os votos de que tivessem melhor sorte que a dele. Claro que ninguém gastou um centavo desse dinheiro mas também ninguém se esqueceu do MELO.
Ainda sobre a questão da evacuação do MELO, importa lembrar o episódio decorrente do facto de, no momento da chegada do helicóptero, ele já estar morto. O piloto, armado em esperto, descobriu o que todos os presentes sabiam… E veio com a velha treta das N.E.P.´s (Normas de Execução Permanente ) que proibiam a evacuação de cadáveres. Claro que o Comandante das forças no T. O. bem sabia o que diziam as ditas normas; no entanto, levá-las a rigor implicaria o transporte de um cadáver num saco de lona durante dias, ocupando dois homens, reduzindo a capacidade operacional do grupo de combate e sendo certo que o corpo, atendendo ao clima de África, entraria rapidamente em putrefacção. Chegados ao quartel, deveria o corpo ser sepultado sem caixão próprio e aí aguardaria, com uma tabuleta numerada, ordens de transladação. Era uma solução que, além de desumana, comprometeria os objectivos da operação.
Perante este quadro, o piloto foi “diplomaticamente” informado de que, se queria voltar ao local de partida – Nampula -, só tinha uma solução: levar o MELO como vivo e dizer em Nampula que ele morrera pelo caminho. E foi o que ele fez…
Esta questão é importante porque vem responder aos comentários de vários camaradas da C. CAÇ. 2707 e de todo o B. CAÇ. 2914 quando, em 23 de Maio de 1999, em romagem à sepultura do José Marques MELO no cemitério da Praia de Mira, à entrada, do lado direito, viram uma lápide onde se diz que o nosso camarada morreu em combate no dia 11.11.1970, em Nampula. Como devem estar recordados todos os que estiveram presentes no convívio que organizei em 1999 na Vila de Tocha, no final da missa dirigimo-nos ao cemitério da Praia de Mira para prestar homenagem ao nosso camarada MELO. Previamente contactei os seus pais, bem como o Presidente em exercício da Junta de Freguesia da Praia de Mira, que esteve presente na cerimónia. Os pais disseram-me com bastante pena que não poderiam comparecer pois tinham já programada para esse período uma viagem ao Canadá, em visita a outros filhos lá radicados. Na campa deixamos uma coroa de flores e idêntica atitude tivemos em relação a todos os combatentes mortos, lembrados pelo monumento à esquerda, no mesmo cemitério. Mesmo agora, ainda algumas pessoas do concelho de Mira com quem tenho falado e que conhecem Moçambique, estranhavam que se tivesse morrido em combate em Nampula. Pois, PARA QUE A TERRA NÃO ESQUEÇA, é bom que se saiba que o camarada MELO morreu mesmo em combate, não em Nampula, mas sim na SERRA MECULA, comportando-se como um HERÓI até aos últimos instantes da sua vida.

Sérgio Rêpas
Ex-furriel miliciano enfermeiro da CCaç. 2707 /BCaç. 2914

domingo, 23 de agosto de 2009

Que dia tão triste !

António Rosa, esteve lá (agora vive em Espanha, nota-se na gramática), escreveu assim:

Era um fatídico dia de Julio de 1973. A coluna para Marrupa saiu,como de costume, muito cedo.
Os componentes da secçâo de detecçâo de minas decidiram adiantarse para começar a picar,"também como de costume", a partir do cruzamento da picada do Candulo, pois nunca antes nesse recorrido tinha aparecido nenhuma mina.
Mas a Frelimo, que conhecia muito bem os nossos costumes, decidiu mudar de ideias.
Uma explosâo enorme se ouviu no quartel, despertando a todos aqueles que ainda dormiam, pois era muito cedo.
Todos imaginámos o que tinha acontecido mas tínhamos a esperança de que fosse sómente um susto.
Imediatamente a radio começou a dar más notícias:Na Berliet viajavam o furriel Rodrigues mecánico auto(CCS/BART3887),o furriel Silva atirador CART3558/BART3887 e onze soldados da CART3558.
Nos informavam que haviam dois mortos, e os restantes, gravemente feridos.
Se movilizou em seguida um grupo para dar assistencia e evacuaçâo aos feridos, mas o tenente médico nâo estava entre os voluntários,pois nâo teve "cataplines" (tomates) para sair.
As notícias eram cada vez mais dramáticas:O número de mortos ia aumentando.
Se pediram urgentemente médios aéreos para evacuar os feridos.
Eu, esse dia,entrava de sargento de piquete e me dirigi com os soldados para a pista para proceder à detecçâo de minas e preparar a evacuaçâo.
Passado algum tempo chegaram dois aviôes. Os feridos chegaram em seguida numa viatura aos cuidados do furriel enfermeiro Ferrâo (falecido num acidente de carro recem chegado à metrópole; que Deus o tenha na Sua Glória).
Na pista eu nâo tinha rádio e desconhecia o número de feridos a evacuar. Perguntei ao Ferrâo quantas viaturas vinham e ele respondeu: Só esta!
Eu exclamei: Meu Deus! pois só vi três soldados.
O Ferrâo e um soldado transportaram para o aviâo o 1º ferido. Um soldado e eu agarrámos no 2º ferido que era um soldado moçambicano. No trajecto da viatura ao aviâo eu vi que a cabeça dele caía para um lado e disse ao Ferrâo: Morreu.
O piloto que nâo tinha descido do aviâo parece que ouviu o que eu disse e gritou: Se está morto nâo o levo!
Eu respondi: Você nâo vê que nâo está morto, que ainda se mexe. De certeza Sim,de certeza! Mas era mentira.
Metemos depois o 3ºferido e o aviâo partiu. Dentro dois superviventes:O Albino, que hoje se move numa cadeira de rodas, e o condutor da Berliet que nâo recordo o nome,também com grandes deficiencias psíquicas.
No quartel ficavam dez mortos, mais um no aviâo, dava um total de onze.
A trampa mortal consistiu numa mina colocada no rodado e três mais no centro da picada conectadas à primera.
Além disso estavam colocadas antes do cruzamento do Candulo,onde normalmente começávamos a picar.
Envio-te algumas fotos :A primeira de uma Berliet Tramagal intacta e as outras que mostram como ficou, depois de tâo tremenda explosâo.Também se veêm alguns dos soldados que foram a socorrer aos feridos,em primeiro plano o Lázaro Reis e mais atrás o Aquilino.
Que todos descansem em paz.

Desde Málaga um abraço.

António Rosa
Ex furriel mecánico de armas CCS/Cart3887



segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Capítulo Sexto - Até Angola

Um som longínquo a que não estou habituado acorda-me. Estranho o ambiente que me vai rodeando aos poucos. À medida que o sono me liberta e escorrego para a realidade, vou caindo em mim. Comboio. embarque, mar. Era isso! Tinha sido a primeira noite no mar. A pele transpirada, pedia-me o banho matinal estimulante. Era cedo. Após a higiene, fui tomar o pequeno almoço e passeei pelo barco. Não queria crer. Os porões estavam todos aproveitados com beliches improvisados. A diferença entre os soldados que ali dormiam e a minha cama no beliche de 2.ª classe era um abismo. Eles dormiam abaixo do nível do mar, onde se notava muito mais o balancear do paquete. Agora percebia porque é que a viagem, que para mim estava a ser boa, se tornava um pesadelo para eles. Senhores que mandam, pensei, onde está a vossa consciência, se é que a têm? Arrancam-se homens do seio da família, do recato de um dia a dia pacato, transformam-nos em militares e enviam-nos para longe, onde muitos vão dar a vida, em defesa do vosso ponto de vista intransigente e ultrapassado! E como prémio tratam-nos desta forma? Que mal fizeram eles? Como irão chegar ao fim deste suplício?
Como a dor dos outros nos passa depressa, especialmente este estado de coisas que um sistema autoritário mantinha, ao pôr os olhos na imensidão do mar e nas cabriolas dos golfinhos que nos seguiam, esqueci-me completamente do sofrimento que acabara de ver.
Passámos ao largo da Madeira e das Canárias. Apaixonante esta vida do mar.
Percebo o que puxava os Lusitanos para os “descobrimentos”. Estava no seu sangue e no meu também. Mas não posso chamar descobrir à chegada a uma terra já habitada e onde nos impusemos. Demos a conhecer ao velho mundo a existência de terras e gentes diferentes. Que colonizámos. Que subjugámos em nome da crença, da fé e da Pátria.
A vida no barco era de laser. Embora sendo um navio de transporte de tropas, revivia os cruzeiros de antanho, com orquestra privativa mas sem damas para o baile, filmes, bingo, lojas.
Como não podia deixar de ser, com tanto militar junto generalizaram-se a lerpa e os copos.
Deixávamos para trás Cabo Verde a caminho do Equador. A piscina finalmente cheia, estava a funcionar e eu passava lá a maior parte do dia.
A piscina de terceira classe continuava vazia e um soldado, terá lá caído fracturando o crânio. Apetece comentar: soldado não tem direito a nada. Mudaríamos a rota para o evacuar em São Tomé. Assim constava, mas não aconteceu. Nunca consegui saber a verdade. Teria havido a queda e o traumatismo? Teria sido pensada a evacuação? Ou era apenas um soldado?
Chegara o primeiro de Maio e o Equador. O calor era insuportável, mas tinha a piscina, copos e boa vida. A comida era excelente e eu não enjoava.
Depois das refeições fazia sempre um passeio à ré para visitar um albatroz que ‘vivia’ na amurada do barco aguardando o despejo dos restos. Alimentava-se dali. Iria acompanhar-nos até próximo de Luanda, onde chegámos a 4 de Maio, cerca das 6 horas da manhã. Com a terra à vista e a gozar a sua aproximação pudemos contemplar um espectáculo assombroso. A baía de Luanda. Linda. Não eram só coisas más. Podíamos tirar partido destes pequenos pormenores.
Formaram os Batalhões no convés e foram distribuídas as dispensas, a lembrar que aquilo era tropa e nunca uma excursão.

-------------------------------

À minha geração que combateu
com a modéstia
que sempre a norteou,
este contributo para açoitar
memórias esquecidas.
Lopan

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os HORRORES da guerra !

No dia 21 de Novembro de 1971, fui chamado ao nosso capitão miliciano Dias de Carvalho que me disse:
Estamos quase no fim da comissão, e as coisas estão a complicar-se por estes lados, a partir de agora só vão levar os caçadores ao mato os furriéis mais operacionais e com rádio "Racal" e bolsa de enfermeiro.
Até esta data, geralmente esta tarefa era atribuída aos furrieis chamados"aramistas" (transmissões, rádio montador, secretaria, enfermeiros, etc). Considerava-se uma missão de baixo risco e toda a gente podia ajudar a descansar os Sapadores e os Atiradores da 2707.
Assistiu a esta conversa o furriel Sapador Almeida, ele trabalhava com o capitão na Secretaria.
O furriel Almeida, além de ser meu amigo, era um homem solidário, ofereceu-se para ir com os caçadores na manhã do fatídico dia 22 de Novembro alegando que eu estava cansado por ter regressado de uma coluna de três dias. Trocamos de serviço, eu fazia o piquete dele.
Apesar das cautelas do nosso capitão e da novas precauções, ninguém imaginava que ao fim de dezoito meses de comissão fosse ali colocada uma mina!
Os militares viajavam num Unimog (a gasolina), foi uma desgraça completa. O Almeida teve a sorte de viajar de pé, foi projectado, partiu os ossos todos, ficou muito mal tratado.
Os soldados que viajavam na caixa, ficaram todos queimados alguns deles perto da morte!
Desta vez tinham rádio, puderam pedir socorro a Mecula.
Estando eu de piquete, de imediato saímos a caminho da "ponte dos caçadores" na picada de Nantuego. Seguimos os rodados da viatura deles, sem picar... na esperança de que naquele curto espaço de tempo ninguém colocava mais minas!
Chegamos ao local e ficamos em estado de choque, aquele cheiro a "carne queimada", corpos queimados da cabeça aos pés... o Carvalheira e o Ranger Sapador metiam dó olhar para eles.
A mina tinha rebentado debaixo do depósito da gasolina!
Vieram dois helicopteros de Mueda e fizeram-se as evacuações dos feridos.
Os mecânicos carregaram a viatura sinistrada e iniciamos a viagem de regresso ao quartel.
Iniciamos a marcha da coluna, eu seguia juntamente com o Cardoso na penúltima viatura, um Unimog a gasolina. No fim da coluna vinha o "Pincha Mercedes" dos Sapadores.

Pouco metros depois de iniciada a marcha, o Maçãs Sapador faz-me sinal para eu ir para a viatura dele (sapadores) os rapazes estavam em estado de choque depois de assistir os colegas queimados.
Deixo o Cardoso sózinho, fico parado na picada á espera de subir para o "Pincha" e a menos de 50 metros o Cardoso rebenta a mina... depois de já terem passado duas viaturas de regresso a Mecula e de parte de manhã as viaturas de socorro aos feridos.

Foi a maior cena de "horror da guerra" ter de pegar ao colo o meu condutor (dessa manhã) com as duas pernas amputadas e ajudar o enfermeiro da 2707 a prestar-lhe assistência.
Homem de coragem esse enfermeiro, a ver morrer um dos seus melhores amigos, sem desfalecer colocando garrotes, tentando salvá-lo.
Há gente com muita coragem. Gente solidária que "frente à morte na luta pela vida"... nos dava destas lições de grande carácter.
Os helicópteros ainda estavam a reabastecer em Mecula, um deles veio fazer a evacuação do Cardoso.
Pouco valeu, veio a falecer na viagem a caminho do Hospital!
Não tenhamos medo das palavras, a guerra é uma coisa horrorosa onde só há vencidos!

Fala-se de "minas de carretos" de disparo retardado... nunca vi nenhuma... tenho outra teoria e um dia destes num post vou falar desse tema.

Este Cardoso morreu á sétima passagem.... o outro Cardoso(mecânico) morreu no fim da coluna depois de terem passado mais de trinta viaturas!
Tem de haver uma explicação, lá isso tem.

Ainda hoje não sou capaz de explicar porque estas coisas aconteceram comigo: os crentes chamam-lhe milagres, outros dizem que é o destino, e quem acredite que há dias de sorte!

Uma coisa é certa, (dizem os meus amigos: ás sete saíu-te o "totobola" e às onze o "euromilhões"), foi o meu dia de sorte!. Os camaradas que ainda estão vivos podem confirmar esta história e o Maçãs tem mil razões para dizer que foi o meu "anjo da guarda" naquele dia!

Para o Cardoso, que Deus tem, vão as minhas orações, Paz à sua Alma!
Para o Maçãs, muitos anos de vida e um grande abraço.

Um texto autobiográfico de:
Ernesto Penedones Fernandes
Ex- Furriel Miliciano Sapador do BCaç. 2914

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Alguém que estava em Gomba

Miranda estava lá e escreve assim:

EM MEMÓRIA DO ALFERES
VIEIRA


Prometi voltar…
Com um abraço para o nosso amigo Repas, quero frisar que o que vou dizer não é de modo algum uma correcção ao seu depoimento. É tão só a minha versão e, também “a minha verdade”. De salientar que esta minha participação sobre este assunto, só acontece porque o Repas me encorajou ao abordá-lo de novo. Fico-lhe grato por isso. Eu também estive na referida operação que viria a dar origem a esta viagem fatídica. Devo confessar, porque a maioria dos camaradas desconhece, que foi por Deus estar do nosso lado, que esta não resultou numa tremenda tragédia!

Enquanto operacional (para além dos ocupantes do avião) devo ter sido, quiçá, o último camarada a falar com o nosso amigo Vieira.

Vou contar. (Parece que foi ontem...) : -

Estava no destacamento de GOMBA-RIO ROVUMA com o 1º Pelotão (eu pertencia ao 4º). Não havia Alferes. Como era o Furriel mais antigo cabia-me a responsabilidade de “comandar”. O outro Furriel era o Humberto Carreiro.

Em dia fora de calendário da ida de avião com correio e “frescos”, ouve-se ao longe o ruído de uma aeronave. Gera-se a habitual confusão da surpresa mas rapidamente se monta a respectiva segurança à pista para que o “pássaro” pouse sem problemas. Nele vinham três pessoas; o piloto, o nosso Comandante de Batalhão Major Barata Alves e o Vieira. Fiquei todo contente com a surpresa. Depois de cumpridas as formalidades habituais, disse: Até que enfim Vieira, já estou farto de fazer de Alferes!

Com o seu peculiar sorriso de orelha a orelha, respondeu: Isso querias tu, eu só venho passear! Também já estou farto de Mussoma!

Então disse-me que o Comandante de Batalhão em regresso de Vila Cabral, resolveu verificar o estado da renovada pista de Mussoma e depois o convidou a acompanhá-lo naquela viagem.

Não houve tempo para mais conversa, só deixaram o correio, que era sempre ansiado e pouco e alguns “frescos”. De seguida partiram…! Depois aconteceu…!

Dramática e ao mesmo tempo curiosa, foi a maneira como eu tive conhecimento do sucedido. Só duas ou três semanas depois, com a chegada de férias do Administrador de Posto (o Chinês), em conversa à mesa falou-se no nome do Vieira e, espontaneamente o Administrador pergunta/afirma: “O que morreu no avião?!”…

VIEIRA, SEREMOS CAMARADAS E AMIGOS PARA SEMPRE! DESCANSA EM PAZ !

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O "derby" do esparguete

O prato forte, de Mecula, era zebra com esparguete.
Nos dias deste menu, havia sempre quem tirasse a barriga de misérias e se desse ao luxo de comer meia dúzia de pratos!
Em ambas as companhias ( CCS e Caç. 2707) havia grandes especialistas "comilões", ao ponto do furriel vaguemestre Martins se lembrar de promover uma jornada gastronómica digna de constar no "Guinness Book"!
Mandou cozinhar um caldeirão de zebra com esparguete de propósito para as duas equipas.
Em duas mesas de dez elementos, com os números colados nas costas, estavam representadas as duas companhias aquarteladas em Mecula.
O furriel enfermeiro Castela colocou de prevenção a enfermaria, com maqueiros e enfermeiros equipados a rigor, não fosse o diabo tece-las e morrer alguém de congestão.
Quando o médico, Dr. Lima, foi informado do que se estava a passar no refeitório do rancho geral, o resultado já era um empate de cinco a cinco.... dez terrinas de esparguete e zebra já tinham sido "papadas". Logo de imediato o Doutor proibiu o vaguemestre de fornecer mais comida aos concorrentes.
Dois "atletas" da CCS, o estofador Avintes e o sapador Ferreira de alcunha o "Falta de Ar" (sofria de asma) já tinham aviado sete pratos cada um!

Não chegou a ser distribuído o prémio, porque acabaram empatados por falta de esparguete!


Tanto o Castela como o Martins, juraram que jamais voltariam a promover outro evento para o desempate. Quando verificaram que aqueles "comilões" não eram capazes de parar de comer enquanto houvesse zebra nos pratos!

Um "reco" na parada do quartel

Lourenço, furriel miliciano mecânico da CCaç. 2707, foi a Nampula buscar um Unimog (novinho em folha...) com capota e tudo!
Ao passar por Maúa, foi à missão católica e comprou um porco!
Maúa fica a meio do caminho entre Cuamba (Nova Freixo) e Marrupa. Ao chegar a Marrupa apanhou a coluna para Mecula. Durante a longa viagem foi dando água ao bicho, não fosse ele morrer desidratado com o calor dentro do Unimog. Lá se ia o porco e o dinheiro!

Chegou a Mecula, estacionou a viatura em frente à messe de sargentos e foi chamar o "pessoal" dizendo-lhes:
"Venham todos ver a surpresa que vos trago"!
Abre a capota, baixa o taipal e o "reco" descobre a liberdade e salta abaixo da viatura.
Foi um espectáculo fora do vulgar ver o "reco" a correr pela parada fora, com o Lourenço a gritar:
Agarrem o bicho.... não matem o bicho... quando já havia gente armada de G3 para todas as contigências caso ele passasse a barreira do arame farpado!

Foi melhor que S. Firmin de Pamplona... naquela festa onde soltam os touros na rua !
Num quartel com duas companhias onde a pasmaceira é enorme... qualquer acontecimento extra era sempre algo de especial. Neste caso não houve oficial, sargento, ou praça que não tentasse agarrar o bicho. Houve pegas de caras, pegas de cernelha e rasteiras com as botifarras!
Cansado o animal foi recolhido ao Unimog até que fosse feito um curral com aqueles bidons cheios de areia utilizados como abrigos e ninhos de metralhadora.
Terminada a faena, foi lançada uma OPV (operação pública de venda) de acções do porco.
Apenas um furriel não comprou a sua parte, tinha que ser o Adão que era do "contra"!
Todos os furrieis da CCS e da 2707, alguns alferes e o capitão Rui Rodrigues - Cmdt 2707, subscreveram a OPV.
Durante cerca dois meses foi engordado, o animal, com couves da machamba e restos de comida de rancho geral até ao dia solene da matança do porco.


Quem todos os dias nos dava cabo do juízo, era o nosso Cmdt de Batalhão - major Barata Alves - dando-nos prazos para matar o porco!
De facto ele tinha razão, no quartel havia: um cão, um macaco e agora um "reco"... aquilo estava a tornar-se um jardim zoológico!

Um conto de:
Ernesto Fernandes
Ex- Furriel Miliciano Sapador de BCaç. 2914

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A mensagem do Miranda

Amigo Fernandes!
Cá está a minha primeira participação em tão importante trabalho a que em boa hora resolveste dar início.
Parabéns amigo Fernandes pela iniciativa, pois não só serve para que nós os "intervenientes" possamos sentir que estamos mais perto uns dos outros e recordar todos aqueles "bons e menos bons" momentos vividos com toda a intensidade que as circunstâncias exigiam; mas também para que os outros os "não intervenientes" em especial (como aqui já foi dito) os nossos vindouros possam com mais facilidade tomar consciência de que a guerra existiu e que nós estivemos lá a lutar pela Pátria.
Quero que dês um grande abraço de agradecimento ao teu sobrinho pelo feito realizado.
Foi com grande emoção que revi o "nosso Monumento" intacto e conservado. (com as óbvias alterações, claro!).
Ainda se podem observar os orifícios de estarem cravadas as placas que lembravam os nossos camaradas mortos em combate.
Bem haja por isso! Prometo voltar...

Um abraço!
Mário Miranda
Ex- Furriel Miliciano Atirador de Infantaria da CCaç. 2707

As aulas do furriel Rêpas

Sérgio Rêpas, escreve assim:
"Na zona das árvores, então de menor porte, havia à volta delas mesas e bancos de madeira. Era aí que se sentavam as praças bebendo a sua cervejinha.
Debaixo de uma dessas árvores, depois de almoço, funcionavam, em 1971, as Escolas Regimentais, a meu cargo, não remunerado. Volta e meia, recebia a visita do " Inspector " Major Barata Alves, que tinha muito apreço por essa actividade e, como prémio, me concedeu nesse ano dez dias extra de licença para férias na Metrópole.
No ano lectivo de 1971/1972 as aulas passaram a funcionar à noite, fora do quartel, no edifício da Escola de Mecula, através de um Curso de Adultos oficial, aberto à população civil e remunerado, cuja criação consegui na Repartição Escolar Distrital do Niassa, em Vila Cabral. Além dos militares interessados inscrevi uma série de trabalhadores moçambicanos contratados no quartel, que faziam "gazeta" mas contavam para a estatística...
Através desses cursos dezenas de militares - praças, claro - adquiriram conhecimentos e fizeram exames, certificados por diploma, da 4.ª Classe e até mesmo da 3.ª Classe, que muitos não tinham conseguido cá fora, como civis...
Mas isso será um óptimo tema para outra crónica, mais extensa, com fotografias de grupos de alunos nos dias dos exames".

Um abraço
Sérgio de Jesus Rêpas
( Ex-Furriel Miliciano Enfermeiro da C. CAÇ. 2707 )