Um som longínquo a que não estou habituado acorda-me. Estranho o ambiente que me vai rodeando aos poucos. À medida que o sono me liberta e escorrego para a realidade, vou caindo em mim. Comboio. embarque, mar. Era isso! Tinha sido a primeira noite no mar. A pele transpirada, pedia-me o banho matinal estimulante. Era cedo. Após a higiene, fui tomar o pequeno almoço e passeei pelo barco. Não queria crer. Os porões estavam todos aproveitados com beliches improvisados. A diferença entre os soldados que ali dormiam e a minha cama no beliche de 2.ª classe era um abismo. Eles dormiam abaixo do nível do mar, onde se notava muito mais o balancear do paquete. Agora percebia porque é que a viagem, que para mim estava a ser boa, se tornava um pesadelo para eles. Senhores que mandam, pensei, onde está a vossa consciência, se é que a têm? Arrancam-se homens do seio da família, do recato de um dia a dia pacato, transformam-nos em militares e enviam-nos para longe, onde muitos vão dar a vida, em defesa do vosso ponto de vista intransigente e ultrapassado! E como prémio tratam-nos desta forma? Que mal fizeram eles? Como irão chegar ao fim deste suplício?
Como a dor dos outros nos passa depressa, especialmente este estado de coisas que um sistema autoritário mantinha, ao pôr os olhos na imensidão do mar e nas cabriolas dos golfinhos que nos seguiam, esqueci-me completamente do sofrimento que acabara de ver.
Passámos ao largo da Madeira e das Canárias. Apaixonante esta vida do mar.
Percebo o que puxava os Lusitanos para os “descobrimentos”. Estava no seu sangue e no meu também. Mas não posso chamar descobrir à chegada a uma terra já habitada e onde nos impusemos. Demos a conhecer ao velho mundo a existência de terras e gentes diferentes. Que colonizámos. Que subjugámos em nome da crença, da fé e da Pátria.
Passámos ao largo da Madeira e das Canárias. Apaixonante esta vida do mar.
Percebo o que puxava os Lusitanos para os “descobrimentos”. Estava no seu sangue e no meu também. Mas não posso chamar descobrir à chegada a uma terra já habitada e onde nos impusemos. Demos a conhecer ao velho mundo a existência de terras e gentes diferentes. Que colonizámos. Que subjugámos em nome da crença, da fé e da Pátria.
A vida no barco era de laser. Embora sendo um navio de transporte de tropas, revivia os cruzeiros de antanho, com orquestra privativa mas sem damas para o baile, filmes, bingo, lojas.
Como não podia deixar de ser, com tanto militar junto generalizaram-se a lerpa e os copos.
Deixávamos para trás Cabo Verde a caminho do Equador. A piscina finalmente cheia, estava a funcionar e eu passava lá a maior parte do dia.
Como não podia deixar de ser, com tanto militar junto generalizaram-se a lerpa e os copos.
Deixávamos para trás Cabo Verde a caminho do Equador. A piscina finalmente cheia, estava a funcionar e eu passava lá a maior parte do dia.
A piscina de terceira classe continuava vazia e um soldado, terá lá caído fracturando o crânio. Apetece comentar: soldado não tem direito a nada. Mudaríamos a rota para o evacuar em São Tomé. Assim constava, mas não aconteceu. Nunca consegui saber a verdade. Teria havido a queda e o traumatismo? Teria sido pensada a evacuação? Ou era apenas um soldado?
Chegara o primeiro de Maio e o Equador. O calor era insuportável, mas tinha a piscina, copos e boa vida. A comida era excelente e eu não enjoava.
Chegara o primeiro de Maio e o Equador. O calor era insuportável, mas tinha a piscina, copos e boa vida. A comida era excelente e eu não enjoava.
Depois das refeições fazia sempre um passeio à ré para visitar um albatroz que ‘vivia’ na amurada do barco aguardando o despejo dos restos. Alimentava-se dali. Iria acompanhar-nos até próximo de Luanda, onde chegámos a 4 de Maio, cerca das 6 horas da manhã. Com a terra à vista e a gozar a sua aproximação pudemos contemplar um espectáculo assombroso. A baía de Luanda. Linda. Não eram só coisas más. Podíamos tirar partido destes pequenos pormenores.
Formaram os Batalhões no convés e foram distribuídas as dispensas, a lembrar que aquilo era tropa e nunca uma excursão.
Formaram os Batalhões no convés e foram distribuídas as dispensas, a lembrar que aquilo era tropa e nunca uma excursão.
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À minha geração que combateu
com a modéstia
que sempre a norteou,
este contributo para açoitar
memórias esquecidas.
Lopan