sábado, 27 de fevereiro de 2010

Uma Viagem a Mecula

A minha acidentada, mas agradável, viagem a Mecula

– 08/12/64 - Na madrugada de hoje, cerca das 04:30, iniciei uma viagem com destino a Mecula, fazendo parte da escolta, a prestar a duas viaturas carregadas de materiais, para o novo quartel, em construção, naquela localidade, onde futuramente, previsivelmente, serão alojadas as tropas de toda a CART 636. Actualmente, já está ali destacado um pelotão, em instalações precárias.

Haviam decorrido, aproximadamente, três horas de viagem, após e partida de Marrupa, quando sur­giu um imprevisto: O condutor da viatura que seguia na retaguarda, foi surpreendido pela paragem brusca da viatura que seguia na sua frente, originada por um buraco na estrada. A travagem que efectuou foi insuficiente, pelo que não evitou de embater contra a traseira daquele veículo, em plena recta da estrada, de que veio a resultar um rombo no radiador, por o material transportado, na viatura da frente, exceder os limites da caixa de carga, ficando por isso impossibilitada de prosseguir viagem.
Felizmente ninguém se feriu. Eu seguia no carro sinistrado.

Como já estávamos próximos do rio Lugenda, resolveu-se levar a primeira carga ao batelão, este indispensável para a travessia daquele rio e voltar a trás, buscar a carga da viatura sinistrada. Assim, ficamos a aguardar que a viatura fosse e voltasse.
Mais tarde, foi feito o transbordo dos materiais para o veículo em funcionamento e seguimos neste, para auxiliarmos na travessia do rio.

Já com bastante atraso, chegamos enfim ao Rio Lugenda, onde tivemos de executar uma operação dificílima, para prosseguir a viagem. Aqui não existe qual­quer ponte e havia necessidade de passar para a outra margem: as pessoas, a viatura e a dupla carga. Foi utilizando um enorme batelão de borracha, de ar comprimido, “tipo jangada” que nesse local do rio, está posicionado, para aquele efeito. Primeiro passamos o carregamento e depois a via­tura "Canadá", cuja operação foi morosa e bastante trabalhosa, havendo necessidade de, junto das margens, nos metermos na água até à cintura, para com o auxílio de cordas, dar direcção ao batelão, durante as manobras de desatracar e de atracar na margem oposta. A travessia do rio tem uma extensão, aproximada, de 100 metros.

Às 20:30, ficou concluída a travessia e já sentíamos fome, pois que, desde manhã que nada comíamos, exce­ptuando pão seco e a água que levávamos. Foi então que comemos enfim alguma coisa, umas conservas das rações de combate que levávamos depois das cansativas tarefas atrás mencionadas. Para matar a sede, visto já termos esgotado a água que trazíamos e à falta de melhor, bebemos água do rio onde momentos antes nos havíamos banhado. Estes banhos, no Rio Lugenda, foram e são uma aventura visto que, dizem, que há crocodilos a infestar estas águas. Felizmente não vimos nenhum.

Escurecia quando prosseguimos viagem, no decorrer da qual ainda surgiu outro contra-tempo, que foi o facto de a bateria da viatura ter deixado de carregar por os bornes não estarem devidamente apertados. Conforme pudemos fomos suprimindo estas e outras dificuldades, até que por fim, chegamos a Mecula, cerca das 02:00, da madrugada, cansadíssimos. Não havia camas disponíveis pelo que foram improvisadas umas esteiras que alguns camaradas se prontificaram a arranjar e, sobre elas, assim passamos a noite.

Da forma, acima descrita, assim decorreu a primeira parte da nossa viagem, da ida a Mecula. Vejamos como decorrerá a segunda parte, referente ao regresso a Marrupa que desejamos venha a ser mais feliz.

– 09/12/64 - Logo pela manhã, bem cedo, pelas 06:00 levantámo-nos para ir tomar a primeira refeição da manhã - onde tive oportunidade de con­tactar e cumprimentar vários colegas, das Transmissões, todos da CART 636 aqui destacados, entre os quais os radiotelefonistas, Tino e Henrique e o radiotelegrafista, Lima.
Finda a refeição do café, fomos ao Rio Lugenda, buscar o resto da carga, ali deixada na noite anterior, por ser demasiada para um carro só. Acompanharam-nos os colegas radiotelefonistas Tino e Henrique. De novo, naquele rio, tomamos mais um banho, cuja permanência na água foi, aproximadamente, de uma hora.
De regresso, a MECULA, com a segunda carga, avistamos ao longe muita caça grossa, em debandada, por sentirem a nossa presença. Alguém disparou um ou dois tiros mas não acertou nos alvos móveis, antes pelo contrário, “espantou a caça”.
A localidade de MECULA, está situada na encosta de uma enorme serra, precisamente denominada Serra da Mecula. Fica distante, cerca de 140 Km, da fronteira com a Tanzânia, (ex-Tanganica), separada pelo Rio Rovuma.

Após o almoço e feitas as despedidas dos amigos empreendemos, pelas 14:00, a viagem de regresso a Marrupa. Duas horas e poucos minutos depois, estávamos a proceder às manobras de travessia do rio Lugenda, com recurso ao batelão de bor­racha a fim de transportar a viatura, sendo para o efeito necessário tirar as roupas e meter-nos na água, para as manobras já descritas, onde por fim nos banhamos de novo.
Foi assim, deste modo, que tomei três banhos no Rio Lugenda.

Concluídas as referidas manobras, prosseguimos a viagem até ao local onde havíamos deixado a viatura avariada. Ali passamos a noite, pois já passava das 20:00 e não havia possibilidades de rebocar o carro avariado durante a noite. Fomos acolhidos por um tal, senhor Sousa, português metropolitano, com residência próxima, o qual nos levou para sua casa, serviu-nos uma suculenta ceia e nos deu dormida a todos nós, dez militares: - Todos os ocupantes das duas viaturas, o que foi muito louvável, da sua parte.
Devido aos últimos acontecimentos e à situação instável no Norte de Moçambique (proximidades com o Distrito do Niassa), todos os brancos, civis, da região, assim como a população negra, precisam e agradecem a protecção das tropas. Por isso, o acolhimento, que as tropas têm no meio civil, é bom. Todos sabemos que de um momento para o outro, podemos precisar uns dos outros.

– 10/12/64 - Regresso definitivo, desta viagem, ao nosso quartel em Marrupa, onde chegamos cerca das 09:00. Apesar de esta viagem a Mecula, ter sido algo acidentada e muito trabalhosa, eu quero aqui afirmar que gostei do que vi, da actividade e dos convívios que se proporcionaram.

Uma transcrição do diário da guerra de:
Fernando Pereira
Ex-1º cabo radiotelefonista do BART 639

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Livro do Batalhão 1906 - Terceira parte - (2)

Texto escrito no ano de 1969, e publicado no livro oficial do Batalhão de Caçadores 1906, onde se relata a actividade das Companhias desta unidade militar, que se passamos a transcrever:

A CCAÇ 1653 mandou um pelotão para Gomba. O Destacamento junto do Rio Rovuma era um inferno de mosquitos, ratos e de calor, mas que era preciso manter e beneficiar. Dali saíam as patrulhas a fim de vigiarem o Rovuma e o Lugenda e em Negomano muitas vezes se juntavam com as forças da Companhia vizinha. Muitas peripécias e obstáculos para se lá chegar, sendo o principal o Rio Lulanga, que se passava só com guincho, quando se passava, pois a força da corrente era tão forte que só de uma vez reteve o seu leito dois Unimogs. 
Como a zona de acção da CCAÇ só tinha «turras» para os lados de Muenha dedicou-sa mais a patrulhamentos para pesquisa de notícias e detecção de actividades terroristas, à vigilância sobre as populações para prevenir qualquer princípio de subversão e a colaborar com as autoridades administrativas no apoio às populações. Porém, não deixou de realizar operações quer na zona de acção quer noutras, e foi a primeira a sofrer baixas. Também capturou material e sofreu efeitos de rebentamentos de engenhos explosivos; contudo, a sua melhor actuação foi na ajuda às populações, tendo sido decisiva a sua acção na construção de seis aldeamentos, melhoramento de picadas, no ensino da nossa língua e das primeiras letras às crianças autóctones, na assistência sanitária quer itenerante quer na Sede da Companhia e Destacamentos, nos transportes de pessoas e bens, no apoio ao comércio com os nativos, etc,etc. 
O pessoal da CCAÇ com a maior dedicação construiu, com a colaboração das autoridades administrativas de Mecula, a ponte sobre o Rio Lulanga, denominada «Ponte Abrantes» (sede da unidade mobilizado da CCAÇ 1653), que afinal teve um triste fim pois nas primeiras chuvadas de 1967 alguns pilares foram levados mesmo antes da inauguração oficial, mas a culpa não foi pedreiros, que bastante suor lá deixaram. 

A CCAÇ 1654 lá por Namicunde, deixou obra e uma linda Capela, também inicialmente teve acção semelhante CCAÇ 1653, mas com menos sorte, pois teve de construir os seus próprios alojamentos. Trabalhou, lutou, teve feridos e capturou material inimigo. Mais tarde, como for intervenção do Batalhão de Maúa, passou maus bocados, até que voltou a reunir-se aos seus. Antes de seguir ao seu destino, acompanhando a CCAÇ 1655 e outras força fez parte dos Agrupamentos que pela primeira vez demonstraram ao inimigo que o Cassero não era zona segura.
Foi transferida para Nantuego onde construiu, do nada, um quartel para no fim não o poder gozar. Foi sua sina construir para os outros! Beneficiou os alojamentos do Destacamento e muito contribuiu para a construção de dois aldeamentos. Prestou assistência e auxílio às populações e manteve escolas onde muitas crianças aprenderam a língua pátria e as primeiras letras. O que os seus pelotões sofreram no Lureco também dava uma linda história, em especial o do Alferes Silva, que com o do Alferes Alves acompanhou a Engenharia na abertura da famosa picada para a Ilha de Metarica. As peripécias das escoltas e segurança à Junta Autónoma das Estradas e Engenharia na picada Lureco - Revia e Lureco-Metarica, ficam para cada um contar aos seus filhos, ou aos netos. 

A CCS, em Marrupa, não teve descanso, pois as escoltas ao Lugenda, as beneficiações no quartel, as capinações, a machamba, a construção dos alicerces do quartel metálico, o levantamento das 9 barracas, a ajuda na construção das 12 habitações para oficiais e sargentos, foram esforços constantemente dispendidos. As célebres escoltas à América com fogo de artifício», atascanços de viaturas e até quedas ao Lureco, não eram muito desejadas. A América tornou-se num «papão» e, se algum «pisava o risco», era logo ameaçado de ir para lá ou para o Lureco e que o digam o corneteiro...ou o cantineiro! Por outro lado, a actividade psicológica exigia o emprego de todos e só com boa vontade e o esforço de muitos se conseguiu deixar 20 aldeamentos feitos, alguns dos quais com poço e e picota. 
A CCS ajudou a levantar as barracas metálicas no quartel do Cândulo, montou outras em Nantuego e Mussoma, construiu muitos pontões, beneficiou muitos quilómetros de picada, pelo que não se pode dizer que teve frio, antes pelo contrário, trabalhou “maning”. Para não ficar atrás dos Caçadores até realizou operações no Lugenda, além da protecção dos postos de Comando avançados do Batalhão. Muito têm também que contar os seus mecânicos e outros especialistas, pois o descanso não lhes era permitido e os dias do Niassa não serão facilmente esquecidos. (fim de citação)

O Feiticeiro de GOMBA

  Um Conto Verdadeiro -“XICUEMBO”
    Corria o ano de 1967 e, no Distrito do Niassa (julgo que também em Cabo Delgado) o Governo da Província elaborou um plano de construção de aglomerados populacionais que ficaram conhecidos como “Aldeamentos”. Para tal, foi pedido apoio às entidades militares que nas suas viaturas transportavam troncos de àrvores e bambu (para as paredes) e capim (para os telhados), entre outras coisas.  
    Tinha como principal finalidade um maior e melhor controle das populações, por um lado e, por outro, dificultar os contactos com os elementos dos movimentos de libertação. Ora isso deu origem a uma enorme contestação por parte desses movimentos que, através das rádios oriundas da Tanzânia, chamavam a esses aldeamentos “Campos de Concentração”. Mas, vamos ao que interessa:
    Em Gomba, zona em que me encontrava na altura, quando começaram a desmatar o terreno escolhido para a construção de um desses aldeamentos, surgiu um obstáculo que não estava previsto:  Um enorme imbondeiro, (seis homens de mãos dadas, não o conseguiam abraçar; era necessário entrar um sétimo), “recusava-se” a cair. O chefe daquela zona (Régulo???) conhecido entre os militares por “Grande Chefe Tába-Tába”,andava há já uns dias com uma equipe de 20 ou 25 homens a tentar derrubar o “monstro”, sem o conseguir.
     O comandante da minha companhia, perguntou-me se eu conseguia fazê-lo, utilizando explosivos. Respondi de imediato que sim, só que não teria a certeza da quantidade necessária para o fazer. A minha experiência, resumia-se a umas aulas em Tancos durante o Curso de Minas e Armadilhas em que se faziam os testes práticos mas com madeiras (pinheiro e eucalipto) que tinham uma textura compacta, muito diferente da do imbondeiro que era fibrosa e cheia de àgua, idêntica à das palmeiras. Logo, a fórmula aprendida no curso não teria aplicação. Pela minha parte, não queria falhar neste meu trabalho, para mais que se tinha gerado grande espectativa na população. Tanto o chefe Tába-Tába como os seus homens, que nunca tinham ouvido falar em explosivos, não acreditavam que um “Zé Ninguém” como eu, sozinho,fôsse capaz de fazer aquilo que seus homens não conseguiram.        Para que a operação resultasse, pedi que me abrissem 4 buracos a toda a volta da àrvore, onde couvesse um punho. Em cada um desses buracos, meti o explosivo, ( Cargas atacadas ), ligados entre si por cordão detonante. Falo-te nestes termos porque sei que tu, como Sapador, entendes. Pronto que estava para executar a parte final do meu trabalho, pedi que todo o pessoal se abrigasse e, como mandam as regras, escolhi o sítio onde me iria abrigar após dar início à combustão do rastilho. Para lá levei o Tába-Tába que estava admirado com aquele aparato. Depois de toda a gente abrigada, dirigi-me para o imbondeiro, a fumar pacatamente e, em chegando lá, com o cigarro, inicio o rastilho.
    É indescritível a visão do que sucedeu naqueles segundos.Mesmo eu fiquei admirado com o resultado. A meu lado, o Grande Chefe Tába-Tába tinha os olhos que parecia querer saltarem das órbitas; não queria acreditar no que estava a ver.
    Fui um privilegiado pois,  a partir dessa altura, tinham-me um respeito (medo?!?!?!) que eu podia, mesmo que fosse de noite, andar desarmado que ninguém me tocava com um dedo que fosse.     Constava por toda a zona que o Furriel Pires tinha “XICUEMBO” que significa “feitiço”, segundo me disseram em dialecto Changana.

Domingos José Azenha Pires
Ex-Furriel Miliciano - CCaç.1653 do BCaç.1906

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Livro do Batalhão 1906 - Terceira parte - (1)

Texto escrito no ano de 1969, e publicado no livro oficial do Batalhão de Caçadores 1906, onde se relata a chegada a Moçambique desta unidade militar, que se passamos a transcrever:

Como todos sabem, no mês de Março ainda se está na época das chuvas (na Província de Moçambique) e  por isso, os estragos causados nas picadas e estradas são bem  visíveis. Depois de uma viagem razoável, de umas horas de comboio, de Nacala a Nova Freixo, o pessoal passou à chamada estrada  para Marrupa. O trajecto Nova Freixo - Marrupa foi feito em viaturas com as inevitáveis molhas e os atascanços frequentes, sendo necessário pernoitar a meio da viagem. Receberam assim, os «checas», o primeiro baptismo de chuva a «potes», o primeiro contacto com o muito falado «capim» e com o desagradável «matope».
Depois de várias peripécias chegarem a 6 de Março a Marrupa, perante os olhos curiosos e as chalaças mordazes dos «velhos» e de alguns abraços dos conhecidos, que sempre se encontram em toda a parte.
 A CCAÇ 1654, desembarcou em Namicunde ficando adida ao BART 1893.
No dia 8 de Março de 1967 começaram as CCAÇ 1653 e CCAÇ 1655 a sua viagem para Mecula, mas em virtude da falta de ponte no Rio Lugenda a travessia foi morosamente feita em batelão e assim, a CCAÇ 1655, com toda a sua impedimenta, só conseguiu chegar àquela localidade passados oito dias, depois de acampar nas margens do grande rio onde os pirilampos, as aves que assobiam e os animais selvagens causaram alguns sustos e fizeram sentir aos «novos» que estavam no «mato».
Este Rio Lugenda, que na época das chuvas atinge a largura de águas de cerca de 500 metros, será sempre recordado pêlos que fizeram parte das colunas de reabastecimentos.
Os atascanços de viaturas, a descarga dos géneros e dos combustíveis na margem Sul, o transporte para o barco, a travessia do rio, a descarga na outra margem, a subida dos 50 metros de encosta e o carregamento de novo nas viaturas, são trabalhos que muito suor fizeram correr.
A CCAÇ 1653 instalou-se nos bons edifícios de Mecula, mas aí as camas não tinham mais do que os ferros e então os cartões de cerveja prestaram bons serviços como colchões (de suma-papel) por serem macios. A
CCAÇ 1655 teve de se socorrer da hospitalidade da CCAÇ 1653 até ir para o Cândulo.
Que palavra tão esquisita! Onde fica isso?
Perguntava-se e formulavam-se hipóteses.
Era o desconhecido onde poucos dias antes os «velhos» tinham tido uma forte emboscada, que lhes causou baixas e onde se sabia que toda a população tinha fugido.
A CCAÇ 1654, coitada, lá ficou metida nos buracos de Namicunde, a mãos com uma coisa que diziam ser o quartel mas mais não era do que barracas, capim e uma rede de  arame farpado.
Depois da azáfama da recepção dos materiais e do enfiamento de grandes barretes, que existem sempre nestas alturas, era preciso começar a vasculhar o capim e a mata. Esse capim, de enorme altura e essa mata cheia de ruídos, eram um mistério que se tornava necessário desvendar.
Recebida a missão que impunha: aniquilar os bandos terroristas existentes ou em trânsito; exercer vigilância ao longo da fronteira e patrulhar intensamente a área que foi atribuída, com vista a não deixar o inimigo infiltrar-se, vindo da Tanzânia, as Companhias depois de uns treinos de instrução lançam-se abertamente ao trabalho, com os receios e cautelas próprios dos primeiros passos.
Havendo necessidade de render o Destacamento de Chamba, vai a CCAÇ 1655, pela primeira vez, percorrer os 150 quilómetros de horrível picada, para simultaneamente, com o pelotão que seguia para Chamba, fazer frente aos «turras» que, certamente, não deixariam de vir saudar os «checas».
E assim, pela manhã do dia 19 de Março, uma grande coluna de viaturas, constituída pela CCAÇ 1655 com os milícias do Roxo e tudo sob o comando do Comandante do Batalhão, larga para o desconhecido Cândulo iniciando a operação «Passa a Bola». Demorou-se mais de um dia para percorrer os 110 quilómetros em que foi necessário parar 14 vezes para desatascar viaturas e reparar inúmeros pontões, até se chegar ao Cândulo.
E que se vê? Capim! Palhotas queimadas!
Uma serra e um rio!
Separam-se os grupos de combate. As viaturas fazem barulho, mas agora é precisoque o façam e muito, para que os vigias «turras» as oiçam e pensem que se dirigem para Chamba, donde voltarão no dia seguinte.
Alguns quilómetros mais além, junto da cantina abandonada e queimada pêlos «turras»,estabelece-se a base, donde no dia seguinte o Alferes Florêncio segue com o Capitão Brandão para o destacamento que fica situado junto ao Rio Rovumo e onde, por vezes, seavista gente na Tanzânia.
 Tal como se previa, o vigia inimigo foi avisar os «turras» a Untupa e na manhã de 21, eles acabam por surgir, descontraídos e galhofeiros, para emboscar o pelotão que regressaria do Destacamento de Chamba, como normalmente se costumava fazer. 
Mas enganaram-se, pois tendo sido descobertas as pegadas do vigia, o Alferes Santos seguiu-as e por sua vez foram também seguidas pelo Roxo, Comandante das Milícias. Assim, às oito horas da manha os «bandidos» caíram em Anzola, numa emboscada montada pêlos milícias, tendo sofrido cinco baixas, sendo um dos mortos causados ao inimigo o próprio chefe da Base.
Além das baixas, foram apreendidas duas pistolas metralhadoras, granadas de mão, carregadores, etc.
Estava desvendado o mistério do Cândulo e este primeiro embate foi remédio santo, pois os «turras» ficaram desorientados, como escreveram mais tarde num documento apreendido. Só muito tempo depois, e certamente por lhes ter sido imposto, quiseram perturbar a nossa acção e passaram a colocar minas.
 Este baptismo foi uma alegria e os «checas» deixaram de o ser desde então.
Voltou-se a Mecula com os trofeus.
Passados dias começou então o verdadeiro êxodo da CCAÇ 1655 para o Cândulo, onde nada  havia e era preciso fazer o quartel e simultaneamente procurar e perseguir os «bandidos». Fez-se um bom quartel, beneficiou-se a picada e o Destacamento, reconstruiu-se a ponte sobre o Rio Chiulézi, além de muitos pontões e até se actuou fora da zona de acção da Companhia e da área do Sector, numa  procura constante do inimigo.
Mas como nem sempre se pode estar a  trabalhar, à noite a concertina e a guitarra  faziam-se ouvir e o grupo artístico do Alferes  Germano criou certa fama pela improvisação  de instrumentos e pelas suas melodias (!).
Assim, entre trabalhos, canseiras e momentos de repouso, se foram passando os dias, acumulando aventuras do mato, pois há  muitas: desde aquele homem que na primeira  operação se sentou numa gibóia que tomou  por um tronco e que depois ela se começou  a mover, aos enxames de abelhas, aos animais  corpulentos que de noite rondam os acampamentos, até aos roncos do leão e às manadas de elefantes e búfalos, tudo foi motivo para histórias e historietas. (fim de citação).