– 08/12/64 - Na madrugada de hoje, cerca das 04:30, iniciei uma viagem com destino a Mecula, fazendo parte da escolta, a prestar a duas viaturas carregadas de materiais, para o novo quartel, em construção, naquela localidade, onde futuramente, previsivelmente, serão alojadas as tropas de toda a CART 636. Actualmente, já está ali destacado um pelotão, em instalações precárias.
Haviam decorrido, aproximadamente, três horas de viagem, após e partida de Marrupa, quando surgiu um imprevisto: O condutor da viatura que seguia na retaguarda, foi surpreendido pela paragem brusca da viatura que seguia na sua frente, originada por um buraco na estrada. A travagem que efectuou foi insuficiente, pelo que não evitou de embater contra a traseira daquele veículo, em plena recta da estrada, de que veio a resultar um rombo no radiador, por o material transportado, na viatura da frente, exceder os limites da caixa de carga, ficando por isso impossibilitada de prosseguir viagem.
Felizmente ninguém se feriu. Eu seguia no carro sinistrado.Como já estávamos próximos do rio Lugenda, resolveu-se levar a primeira carga ao batelão, este indispensável para a travessia daquele rio e voltar a trás, buscar a carga da viatura sinistrada. Assim, ficamos a aguardar que a viatura fosse e voltasse.
Mais tarde, foi feito o transbordo dos materiais para o veículo em funcionamento e seguimos neste, para auxiliarmos na travessia do rio.
Já com bastante atraso, chegamos enfim ao Rio Lugenda, onde tivemos de executar uma operação dificílima, para prosseguir a viagem. Aqui não existe qualquer ponte e havia necessidade de passar para a outra margem: as pessoas, a viatura e a dupla carga. Foi utilizando um enorme batelão de borracha, de ar comprimido, “tipo jangada” que nesse local do rio, está posicionado, para aquele efeito. Primeiro passamos o carregamento e depois a viatura "Canadá", cuja operação foi morosa e bastante trabalhosa, havendo necessidade de, junto das margens, nos metermos na água até à cintura, para com o auxílio de cordas, dar direcção ao batelão, durante as manobras de desatracar e de atracar na margem oposta. A travessia do rio tem uma extensão, aproximada, de 100 metros.
Às 20:30, ficou concluída a travessia e já sentíamos fome, pois que, desde manhã que nada comíamos, exceptuando pão seco e a água que levávamos. Foi então que comemos enfim alguma coisa, umas conservas das rações de combate que levávamos depois das cansativas tarefas atrás mencionadas. Para matar a sede, visto já termos esgotado a água que trazíamos e à falta de melhor, bebemos água do rio onde momentos antes nos havíamos banhado. Estes banhos, no Rio Lugenda, foram e são uma aventura visto que, dizem, que há crocodilos a infestar estas águas. Felizmente não vimos nenhum.
Escurecia quando prosseguimos viagem, no decorrer da qual ainda surgiu outro contra-tempo, que foi o facto de a bateria da viatura ter deixado de carregar por os bornes não estarem devidamente apertados. Conforme pudemos fomos suprimindo estas e outras dificuldades, até que por fim, chegamos a Mecula, cerca das 02:00, da madrugada, cansadíssimos. Não havia camas disponíveis pelo que foram improvisadas umas esteiras que alguns camaradas se prontificaram a arranjar e, sobre elas, assim passamos a noite.
Da forma, acima descrita, assim decorreu a primeira parte da nossa viagem, da ida a Mecula. Vejamos como decorrerá a segunda parte, referente ao regresso a Marrupa que desejamos venha a ser mais feliz.
– 09/12/64 - Logo pela manhã, bem cedo, pelas 06:00 levantámo-nos para ir tomar a primeira refeição da manhã - onde tive oportunidade de contactar e cumprimentar vários colegas, das Transmissões, todos da CART 636 aqui destacados, entre os quais os radiotelefonistas, Tino e Henrique e o radiotelegrafista, Lima.
Finda a refeição do café, fomos ao Rio Lugenda, buscar o resto da carga, ali deixada na noite anterior, por ser demasiada para um carro só. Acompanharam-nos os colegas radiotelefonistas Tino e Henrique. De novo, naquele rio, tomamos mais um banho, cuja permanência na água foi, aproximadamente, de uma hora.
De regresso, a MECULA, com a segunda carga, avistamos ao longe muita caça grossa, em debandada, por sentirem a nossa presença. Alguém disparou um ou dois tiros mas não acertou nos alvos móveis, antes pelo contrário, “espantou a caça”.
A localidade de MECULA, está situada na encosta de uma enorme serra, precisamente denominada Serra da Mecula. Fica distante, cerca de 140 Km, da fronteira com a Tanzânia, (ex-Tanganica), separada pelo Rio Rovuma.
Após o almoço e feitas as despedidas dos amigos empreendemos, pelas 14:00, a viagem de regresso a Marrupa. Duas horas e poucos minutos depois, estávamos a proceder às manobras de travessia do rio Lugenda, com recurso ao batelão de borracha a fim de transportar a viatura, sendo para o efeito necessário tirar as roupas e meter-nos na água, para as manobras já descritas, onde por fim nos banhamos de novo.
Foi assim, deste modo, que tomei três banhos no Rio Lugenda.Concluídas as referidas manobras, prosseguimos a viagem até ao local onde havíamos deixado a viatura avariada. Ali passamos a noite, pois já passava das 20:00 e não havia possibilidades de rebocar o carro avariado durante a noite. Fomos acolhidos por um tal, senhor Sousa, português metropolitano, com residência próxima, o qual nos levou para sua casa, serviu-nos uma suculenta ceia e nos deu dormida a todos nós, dez militares: - Todos os ocupantes das duas viaturas, o que foi muito louvável, da sua parte.
Devido aos últimos acontecimentos e à situação instável no Norte de Moçambique (proximidades com o Distrito do Niassa), todos os brancos, civis, da região, assim como a população negra, precisam e agradecem a protecção das tropas. Por isso, o acolhimento, que as tropas têm no meio civil, é bom. Todos sabemos que de um momento para o outro, podemos precisar uns dos outros.
– 10/12/64 - Regresso definitivo, desta viagem, ao nosso quartel em Marrupa, onde chegamos cerca das 09:00. Apesar de esta viagem a Mecula, ter sido algo acidentada e muito trabalhosa, eu quero aqui afirmar que gostei do que vi, da actividade e dos convívios que se proporcionaram.
Uma transcrição do diário da guerra de:
Fernando Pereira
Ex-1º cabo radiotelefonista do BART 639