quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Feiticeiro de GOMBA

  Um Conto Verdadeiro -“XICUEMBO”
    Corria o ano de 1967 e, no Distrito do Niassa (julgo que também em Cabo Delgado) o Governo da Província elaborou um plano de construção de aglomerados populacionais que ficaram conhecidos como “Aldeamentos”. Para tal, foi pedido apoio às entidades militares que nas suas viaturas transportavam troncos de àrvores e bambu (para as paredes) e capim (para os telhados), entre outras coisas.  
    Tinha como principal finalidade um maior e melhor controle das populações, por um lado e, por outro, dificultar os contactos com os elementos dos movimentos de libertação. Ora isso deu origem a uma enorme contestação por parte desses movimentos que, através das rádios oriundas da Tanzânia, chamavam a esses aldeamentos “Campos de Concentração”. Mas, vamos ao que interessa:
    Em Gomba, zona em que me encontrava na altura, quando começaram a desmatar o terreno escolhido para a construção de um desses aldeamentos, surgiu um obstáculo que não estava previsto:  Um enorme imbondeiro, (seis homens de mãos dadas, não o conseguiam abraçar; era necessário entrar um sétimo), “recusava-se” a cair. O chefe daquela zona (Régulo???) conhecido entre os militares por “Grande Chefe Tába-Tába”,andava há já uns dias com uma equipe de 20 ou 25 homens a tentar derrubar o “monstro”, sem o conseguir.
     O comandante da minha companhia, perguntou-me se eu conseguia fazê-lo, utilizando explosivos. Respondi de imediato que sim, só que não teria a certeza da quantidade necessária para o fazer. A minha experiência, resumia-se a umas aulas em Tancos durante o Curso de Minas e Armadilhas em que se faziam os testes práticos mas com madeiras (pinheiro e eucalipto) que tinham uma textura compacta, muito diferente da do imbondeiro que era fibrosa e cheia de àgua, idêntica à das palmeiras. Logo, a fórmula aprendida no curso não teria aplicação. Pela minha parte, não queria falhar neste meu trabalho, para mais que se tinha gerado grande espectativa na população. Tanto o chefe Tába-Tába como os seus homens, que nunca tinham ouvido falar em explosivos, não acreditavam que um “Zé Ninguém” como eu, sozinho,fôsse capaz de fazer aquilo que seus homens não conseguiram.        Para que a operação resultasse, pedi que me abrissem 4 buracos a toda a volta da àrvore, onde couvesse um punho. Em cada um desses buracos, meti o explosivo, ( Cargas atacadas ), ligados entre si por cordão detonante. Falo-te nestes termos porque sei que tu, como Sapador, entendes. Pronto que estava para executar a parte final do meu trabalho, pedi que todo o pessoal se abrigasse e, como mandam as regras, escolhi o sítio onde me iria abrigar após dar início à combustão do rastilho. Para lá levei o Tába-Tába que estava admirado com aquele aparato. Depois de toda a gente abrigada, dirigi-me para o imbondeiro, a fumar pacatamente e, em chegando lá, com o cigarro, inicio o rastilho.
    É indescritível a visão do que sucedeu naqueles segundos.Mesmo eu fiquei admirado com o resultado. A meu lado, o Grande Chefe Tába-Tába tinha os olhos que parecia querer saltarem das órbitas; não queria acreditar no que estava a ver.
    Fui um privilegiado pois,  a partir dessa altura, tinham-me um respeito (medo?!?!?!) que eu podia, mesmo que fosse de noite, andar desarmado que ninguém me tocava com um dedo que fosse.     Constava por toda a zona que o Furriel Pires tinha “XICUEMBO” que significa “feitiço”, segundo me disseram em dialecto Changana.

Domingos José Azenha Pires
Ex-Furriel Miliciano - CCaç.1653 do BCaç.1906