domingo, 7 de fevereiro de 2010

Livro do Batalhão 1906 - Terceira parte - (1)

Texto escrito no ano de 1969, e publicado no livro oficial do Batalhão de Caçadores 1906, onde se relata a chegada a Moçambique desta unidade militar, que se passamos a transcrever:

Como todos sabem, no mês de Março ainda se está na época das chuvas (na Província de Moçambique) e  por isso, os estragos causados nas picadas e estradas são bem  visíveis. Depois de uma viagem razoável, de umas horas de comboio, de Nacala a Nova Freixo, o pessoal passou à chamada estrada  para Marrupa. O trajecto Nova Freixo - Marrupa foi feito em viaturas com as inevitáveis molhas e os atascanços frequentes, sendo necessário pernoitar a meio da viagem. Receberam assim, os «checas», o primeiro baptismo de chuva a «potes», o primeiro contacto com o muito falado «capim» e com o desagradável «matope».
Depois de várias peripécias chegarem a 6 de Março a Marrupa, perante os olhos curiosos e as chalaças mordazes dos «velhos» e de alguns abraços dos conhecidos, que sempre se encontram em toda a parte.
 A CCAÇ 1654, desembarcou em Namicunde ficando adida ao BART 1893.
No dia 8 de Março de 1967 começaram as CCAÇ 1653 e CCAÇ 1655 a sua viagem para Mecula, mas em virtude da falta de ponte no Rio Lugenda a travessia foi morosamente feita em batelão e assim, a CCAÇ 1655, com toda a sua impedimenta, só conseguiu chegar àquela localidade passados oito dias, depois de acampar nas margens do grande rio onde os pirilampos, as aves que assobiam e os animais selvagens causaram alguns sustos e fizeram sentir aos «novos» que estavam no «mato».
Este Rio Lugenda, que na época das chuvas atinge a largura de águas de cerca de 500 metros, será sempre recordado pêlos que fizeram parte das colunas de reabastecimentos.
Os atascanços de viaturas, a descarga dos géneros e dos combustíveis na margem Sul, o transporte para o barco, a travessia do rio, a descarga na outra margem, a subida dos 50 metros de encosta e o carregamento de novo nas viaturas, são trabalhos que muito suor fizeram correr.
A CCAÇ 1653 instalou-se nos bons edifícios de Mecula, mas aí as camas não tinham mais do que os ferros e então os cartões de cerveja prestaram bons serviços como colchões (de suma-papel) por serem macios. A
CCAÇ 1655 teve de se socorrer da hospitalidade da CCAÇ 1653 até ir para o Cândulo.
Que palavra tão esquisita! Onde fica isso?
Perguntava-se e formulavam-se hipóteses.
Era o desconhecido onde poucos dias antes os «velhos» tinham tido uma forte emboscada, que lhes causou baixas e onde se sabia que toda a população tinha fugido.
A CCAÇ 1654, coitada, lá ficou metida nos buracos de Namicunde, a mãos com uma coisa que diziam ser o quartel mas mais não era do que barracas, capim e uma rede de  arame farpado.
Depois da azáfama da recepção dos materiais e do enfiamento de grandes barretes, que existem sempre nestas alturas, era preciso começar a vasculhar o capim e a mata. Esse capim, de enorme altura e essa mata cheia de ruídos, eram um mistério que se tornava necessário desvendar.
Recebida a missão que impunha: aniquilar os bandos terroristas existentes ou em trânsito; exercer vigilância ao longo da fronteira e patrulhar intensamente a área que foi atribuída, com vista a não deixar o inimigo infiltrar-se, vindo da Tanzânia, as Companhias depois de uns treinos de instrução lançam-se abertamente ao trabalho, com os receios e cautelas próprios dos primeiros passos.
Havendo necessidade de render o Destacamento de Chamba, vai a CCAÇ 1655, pela primeira vez, percorrer os 150 quilómetros de horrível picada, para simultaneamente, com o pelotão que seguia para Chamba, fazer frente aos «turras» que, certamente, não deixariam de vir saudar os «checas».
E assim, pela manhã do dia 19 de Março, uma grande coluna de viaturas, constituída pela CCAÇ 1655 com os milícias do Roxo e tudo sob o comando do Comandante do Batalhão, larga para o desconhecido Cândulo iniciando a operação «Passa a Bola». Demorou-se mais de um dia para percorrer os 110 quilómetros em que foi necessário parar 14 vezes para desatascar viaturas e reparar inúmeros pontões, até se chegar ao Cândulo.
E que se vê? Capim! Palhotas queimadas!
Uma serra e um rio!
Separam-se os grupos de combate. As viaturas fazem barulho, mas agora é precisoque o façam e muito, para que os vigias «turras» as oiçam e pensem que se dirigem para Chamba, donde voltarão no dia seguinte.
Alguns quilómetros mais além, junto da cantina abandonada e queimada pêlos «turras»,estabelece-se a base, donde no dia seguinte o Alferes Florêncio segue com o Capitão Brandão para o destacamento que fica situado junto ao Rio Rovumo e onde, por vezes, seavista gente na Tanzânia.
 Tal como se previa, o vigia inimigo foi avisar os «turras» a Untupa e na manhã de 21, eles acabam por surgir, descontraídos e galhofeiros, para emboscar o pelotão que regressaria do Destacamento de Chamba, como normalmente se costumava fazer. 
Mas enganaram-se, pois tendo sido descobertas as pegadas do vigia, o Alferes Santos seguiu-as e por sua vez foram também seguidas pelo Roxo, Comandante das Milícias. Assim, às oito horas da manha os «bandidos» caíram em Anzola, numa emboscada montada pêlos milícias, tendo sofrido cinco baixas, sendo um dos mortos causados ao inimigo o próprio chefe da Base.
Além das baixas, foram apreendidas duas pistolas metralhadoras, granadas de mão, carregadores, etc.
Estava desvendado o mistério do Cândulo e este primeiro embate foi remédio santo, pois os «turras» ficaram desorientados, como escreveram mais tarde num documento apreendido. Só muito tempo depois, e certamente por lhes ter sido imposto, quiseram perturbar a nossa acção e passaram a colocar minas.
 Este baptismo foi uma alegria e os «checas» deixaram de o ser desde então.
Voltou-se a Mecula com os trofeus.
Passados dias começou então o verdadeiro êxodo da CCAÇ 1655 para o Cândulo, onde nada  havia e era preciso fazer o quartel e simultaneamente procurar e perseguir os «bandidos». Fez-se um bom quartel, beneficiou-se a picada e o Destacamento, reconstruiu-se a ponte sobre o Rio Chiulézi, além de muitos pontões e até se actuou fora da zona de acção da Companhia e da área do Sector, numa  procura constante do inimigo.
Mas como nem sempre se pode estar a  trabalhar, à noite a concertina e a guitarra  faziam-se ouvir e o grupo artístico do Alferes  Germano criou certa fama pela improvisação  de instrumentos e pelas suas melodias (!).
Assim, entre trabalhos, canseiras e momentos de repouso, se foram passando os dias, acumulando aventuras do mato, pois há  muitas: desde aquele homem que na primeira  operação se sentou numa gibóia que tomou  por um tronco e que depois ela se começou  a mover, aos enxames de abelhas, aos animais  corpulentos que de noite rondam os acampamentos, até aos roncos do leão e às manadas de elefantes e búfalos, tudo foi motivo para histórias e historietas. (fim de citação).