quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Livro do Batalhão 1906 - Terceira parte - (2)

Texto escrito no ano de 1969, e publicado no livro oficial do Batalhão de Caçadores 1906, onde se relata a actividade das Companhias desta unidade militar, que se passamos a transcrever:

A CCAÇ 1653 mandou um pelotão para Gomba. O Destacamento junto do Rio Rovuma era um inferno de mosquitos, ratos e de calor, mas que era preciso manter e beneficiar. Dali saíam as patrulhas a fim de vigiarem o Rovuma e o Lugenda e em Negomano muitas vezes se juntavam com as forças da Companhia vizinha. Muitas peripécias e obstáculos para se lá chegar, sendo o principal o Rio Lulanga, que se passava só com guincho, quando se passava, pois a força da corrente era tão forte que só de uma vez reteve o seu leito dois Unimogs. 
Como a zona de acção da CCAÇ só tinha «turras» para os lados de Muenha dedicou-sa mais a patrulhamentos para pesquisa de notícias e detecção de actividades terroristas, à vigilância sobre as populações para prevenir qualquer princípio de subversão e a colaborar com as autoridades administrativas no apoio às populações. Porém, não deixou de realizar operações quer na zona de acção quer noutras, e foi a primeira a sofrer baixas. Também capturou material e sofreu efeitos de rebentamentos de engenhos explosivos; contudo, a sua melhor actuação foi na ajuda às populações, tendo sido decisiva a sua acção na construção de seis aldeamentos, melhoramento de picadas, no ensino da nossa língua e das primeiras letras às crianças autóctones, na assistência sanitária quer itenerante quer na Sede da Companhia e Destacamentos, nos transportes de pessoas e bens, no apoio ao comércio com os nativos, etc,etc. 
O pessoal da CCAÇ com a maior dedicação construiu, com a colaboração das autoridades administrativas de Mecula, a ponte sobre o Rio Lulanga, denominada «Ponte Abrantes» (sede da unidade mobilizado da CCAÇ 1653), que afinal teve um triste fim pois nas primeiras chuvadas de 1967 alguns pilares foram levados mesmo antes da inauguração oficial, mas a culpa não foi pedreiros, que bastante suor lá deixaram. 

A CCAÇ 1654 lá por Namicunde, deixou obra e uma linda Capela, também inicialmente teve acção semelhante CCAÇ 1653, mas com menos sorte, pois teve de construir os seus próprios alojamentos. Trabalhou, lutou, teve feridos e capturou material inimigo. Mais tarde, como for intervenção do Batalhão de Maúa, passou maus bocados, até que voltou a reunir-se aos seus. Antes de seguir ao seu destino, acompanhando a CCAÇ 1655 e outras força fez parte dos Agrupamentos que pela primeira vez demonstraram ao inimigo que o Cassero não era zona segura.
Foi transferida para Nantuego onde construiu, do nada, um quartel para no fim não o poder gozar. Foi sua sina construir para os outros! Beneficiou os alojamentos do Destacamento e muito contribuiu para a construção de dois aldeamentos. Prestou assistência e auxílio às populações e manteve escolas onde muitas crianças aprenderam a língua pátria e as primeiras letras. O que os seus pelotões sofreram no Lureco também dava uma linda história, em especial o do Alferes Silva, que com o do Alferes Alves acompanhou a Engenharia na abertura da famosa picada para a Ilha de Metarica. As peripécias das escoltas e segurança à Junta Autónoma das Estradas e Engenharia na picada Lureco - Revia e Lureco-Metarica, ficam para cada um contar aos seus filhos, ou aos netos. 

A CCS, em Marrupa, não teve descanso, pois as escoltas ao Lugenda, as beneficiações no quartel, as capinações, a machamba, a construção dos alicerces do quartel metálico, o levantamento das 9 barracas, a ajuda na construção das 12 habitações para oficiais e sargentos, foram esforços constantemente dispendidos. As célebres escoltas à América com fogo de artifício», atascanços de viaturas e até quedas ao Lureco, não eram muito desejadas. A América tornou-se num «papão» e, se algum «pisava o risco», era logo ameaçado de ir para lá ou para o Lureco e que o digam o corneteiro...ou o cantineiro! Por outro lado, a actividade psicológica exigia o emprego de todos e só com boa vontade e o esforço de muitos se conseguiu deixar 20 aldeamentos feitos, alguns dos quais com poço e e picota. 
A CCS ajudou a levantar as barracas metálicas no quartel do Cândulo, montou outras em Nantuego e Mussoma, construiu muitos pontões, beneficiou muitos quilómetros de picada, pelo que não se pode dizer que teve frio, antes pelo contrário, trabalhou “maning”. Para não ficar atrás dos Caçadores até realizou operações no Lugenda, além da protecção dos postos de Comando avançados do Batalhão. Muito têm também que contar os seus mecânicos e outros especialistas, pois o descanso não lhes era permitido e os dias do Niassa não serão facilmente esquecidos. (fim de citação)