terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os HORRORES da guerra !

No dia 21 de Novembro de 1971, fui chamado ao nosso capitão miliciano Dias de Carvalho que me disse:
Estamos quase no fim da comissão, e as coisas estão a complicar-se por estes lados, a partir de agora só vão levar os caçadores ao mato os furriéis mais operacionais e com rádio "Racal" e bolsa de enfermeiro.
Até esta data, geralmente esta tarefa era atribuída aos furrieis chamados"aramistas" (transmissões, rádio montador, secretaria, enfermeiros, etc). Considerava-se uma missão de baixo risco e toda a gente podia ajudar a descansar os Sapadores e os Atiradores da 2707.
Assistiu a esta conversa o furriel Sapador Almeida, ele trabalhava com o capitão na Secretaria.
O furriel Almeida, além de ser meu amigo, era um homem solidário, ofereceu-se para ir com os caçadores na manhã do fatídico dia 22 de Novembro alegando que eu estava cansado por ter regressado de uma coluna de três dias. Trocamos de serviço, eu fazia o piquete dele.
Apesar das cautelas do nosso capitão e da novas precauções, ninguém imaginava que ao fim de dezoito meses de comissão fosse ali colocada uma mina!
Os militares viajavam num Unimog (a gasolina), foi uma desgraça completa. O Almeida teve a sorte de viajar de pé, foi projectado, partiu os ossos todos, ficou muito mal tratado.
Os soldados que viajavam na caixa, ficaram todos queimados alguns deles perto da morte!
Desta vez tinham rádio, puderam pedir socorro a Mecula.
Estando eu de piquete, de imediato saímos a caminho da "ponte dos caçadores" na picada de Nantuego. Seguimos os rodados da viatura deles, sem picar... na esperança de que naquele curto espaço de tempo ninguém colocava mais minas!
Chegamos ao local e ficamos em estado de choque, aquele cheiro a "carne queimada", corpos queimados da cabeça aos pés... o Carvalheira e o Ranger Sapador metiam dó olhar para eles.
A mina tinha rebentado debaixo do depósito da gasolina!
Vieram dois helicopteros de Mueda e fizeram-se as evacuações dos feridos.
Os mecânicos carregaram a viatura sinistrada e iniciamos a viagem de regresso ao quartel.
Iniciamos a marcha da coluna, eu seguia juntamente com o Cardoso na penúltima viatura, um Unimog a gasolina. No fim da coluna vinha o "Pincha Mercedes" dos Sapadores.

Pouco metros depois de iniciada a marcha, o Maçãs Sapador faz-me sinal para eu ir para a viatura dele (sapadores) os rapazes estavam em estado de choque depois de assistir os colegas queimados.
Deixo o Cardoso sózinho, fico parado na picada á espera de subir para o "Pincha" e a menos de 50 metros o Cardoso rebenta a mina... depois de já terem passado duas viaturas de regresso a Mecula e de parte de manhã as viaturas de socorro aos feridos.

Foi a maior cena de "horror da guerra" ter de pegar ao colo o meu condutor (dessa manhã) com as duas pernas amputadas e ajudar o enfermeiro da 2707 a prestar-lhe assistência.
Homem de coragem esse enfermeiro, a ver morrer um dos seus melhores amigos, sem desfalecer colocando garrotes, tentando salvá-lo.
Há gente com muita coragem. Gente solidária que "frente à morte na luta pela vida"... nos dava destas lições de grande carácter.
Os helicópteros ainda estavam a reabastecer em Mecula, um deles veio fazer a evacuação do Cardoso.
Pouco valeu, veio a falecer na viagem a caminho do Hospital!
Não tenhamos medo das palavras, a guerra é uma coisa horrorosa onde só há vencidos!

Fala-se de "minas de carretos" de disparo retardado... nunca vi nenhuma... tenho outra teoria e um dia destes num post vou falar desse tema.

Este Cardoso morreu á sétima passagem.... o outro Cardoso(mecânico) morreu no fim da coluna depois de terem passado mais de trinta viaturas!
Tem de haver uma explicação, lá isso tem.

Ainda hoje não sou capaz de explicar porque estas coisas aconteceram comigo: os crentes chamam-lhe milagres, outros dizem que é o destino, e quem acredite que há dias de sorte!

Uma coisa é certa, (dizem os meus amigos: ás sete saíu-te o "totobola" e às onze o "euromilhões"), foi o meu dia de sorte!. Os camaradas que ainda estão vivos podem confirmar esta história e o Maçãs tem mil razões para dizer que foi o meu "anjo da guarda" naquele dia!

Para o Cardoso, que Deus tem, vão as minhas orações, Paz à sua Alma!
Para o Maçãs, muitos anos de vida e um grande abraço.

Um texto autobiográfico de:
Ernesto Penedones Fernandes
Ex- Furriel Miliciano Sapador do BCaç. 2914